Edições Toró

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PESQUISAS - Allan da Rosa: "Imaginário, corpo e caneta: matriz afro-brasileira em educação de jovens e adultos"

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(...) lições, funções e missões por estradas e esquinas, bocadas e várzea, me esquivando da encheção de saco de quem pesava na idéia de eu prestar uma faculdade, porque dizia que quem parava não conseguia voltar.

É nada, não necessariamente, porque acho que essa foi das fases que mais li na minha vida. De romance polonês, mexicano e gaúcho, de contos franceses, beatniks, baianos e de poemas mineiros e gregos até teoria lingüística comunista e biografia de astronauta... eu engolia o vício de ler, estudando sem método mas com gulodice. Rodando estradas com livros e fanzines na mochila e teatro no chapéu, conheci por dentro acampamentos, favelas, praias e roças de 20 estados do Brasil. O que fez diferença quando, quatro anos depois de formar no colégio, me matriculei pra fazer o cursinho do Núcleo de Consciência Negra na USP, o NCN, já que todo arsenal juntado e o diferencial na concentração febril do ano de prova vinha do vício de ler, abrindo entendimento e reconhecimento de temas que eram alienígenas pra quem vinha só mastigado das passagens por escolas públicas, caso de 100 % nosso, da pretada que ali entrava no apetite e que às vezes ia até esmorecendo pra culminar no choro depois do vestibular, ou na resignação do que já parecia que ia acontecer mesmo.


Entrar na ilha USP, tomar enquadro das lanternas dos guardinhas e das remelas maquiadas da baronezada que parecia ter nojo e vergonha de dividir o mesmo campus com a gente ( o que se repete até hoje, bom lembrar...) pra nóis postulantes a entrar ali também no estatuto de estudantes oficiais e carimbados da casa, já que o NCN era uma digna e renitente “invasão”, acontecia pra mim uns sete anos depois da única vez que tinha ido ali no verdão da universidade, quando fui com o povo da Americanópolis e da Vila Campestre assistir o show da “Muleque de Rua“, banda da Vila Santa Catarina que dichavava latão e lixo pra tirar percussão e pra cantar “Ô Herodes, comedor de criancinhááá, Ô Herodes, quer comer o Brasil inteiro!!!”, pros gravatas das câmaras e congressos.

Pois assim, passei no tal do vestibular e entrei no curso de História. Concorri também na Geografia da UNESP e passei em primeiro, sendo motivo da simples e compreensível metidez da minha mãe uns dois meses e de um orgulho e uma alta estima no cursinho do Núcleo por um bom tempo também. Jóia. Mas fiz graduação aqui na capital, e pra isso vivi clandestino por três anos e meio em quartos e tretas com a administração do CRUSP ( depois conquistei um ano de vaga lícita), empapuçando da ilha que fascina no começo, mas ao mesmo tempo sempre manjando que ali tinha possibilidades de avermelhar a andada, possibiliades que só dali saíam. Nessas, pela necessidade de arejar a narina do mofo da ilha, me entrosei com gente de muito valor, da rapaziada aos anciãos, que habitava e girava pelos fundão da zona oeste e de Taboão, onde conheci a mocambage do Galpão no Jd.João 23 e a Posse Suatitude de Hip Hop, irmandade que até hoje frutifica e faz Toró, propicia morada, referência e gesto. Depois colei no Embu e fui desguiando pras bandas do outro lado da zona sul, não da ponta que eu vinha, mas outra, dendezada e de onde chegava a maioria dos estudantes que faziam comigo a sala de Educação de Jovens e Adultos ( EJA) no Núcleo de Consciência Negra.

Ali, com a dignidade e a injustiça que arrodeava e inchava os tornozelos, com a mulherada que vinha do Valo Velho, do Taboão, do Rosana, etc, pra trampar na manutenção da ilha e se letrar comigo nos fins de tardes, comecei a lida com o povo adulto que fertiliza os cadernos empunhando os quilos que pesa um lápis e a tonelada de uma caneta, com a teimosia e os pesares, o respeito e a bagagem, que só os coroas têm e trazem pra escola.

Fiz outros trampos na ilha também, por intermédio dos estudos e formações ali cavucados, na universidade que oferece uma penca de oportunidades e de horizontes, que só na ficção brilham na cabeça e no pulso de quem vem daonde a gente vem. Mas a ficção tem sua fricção e ela alimentou a tomada de realidade e a insistência em aprender mais sobre história e cultura, políticas e escritos de matriz afro. Convivendo com a pouca qualificação da maioria dos professores sobre tal questão, mas independente fazendo a retirada de livros e mais livros de pretice na biblioteca, correndo atrás do que ainda hoje, descarada e negligentemente, ainda tá na poeira ou na lateral de fora do que se considera e se ratifica como conhecimento e teor de intelectualidade. E que me parece só mudará quando a universidade ganhar mais tinta, mais gana e gama suburbana.

Dançando, angoleando e desenrolando mais um mar de estripulias, revides, fundamentos, políticas, salgos, militâncias e, principalmente, trançando as manhãs e noites com as quebradas das bandas da oeste e da sul paulistanas, concluí a graduação em História, habilitado pra pesquisar e pra dar aula. Mas aí mirei uma linhagem de estudos na Faculdade de Educação, que parecia deixar aberto o ensino da Poesia da vida sem esquematizar e anestesiar o conhecimento, a palavra e a experiência, sem congelar o fraseado e o imaginário ( A Faculdade de Letras, de onde saem algumas pessoas de valorosa atuação na rua e de matutação admirável, também é onde, por exemplo, mais ouvi a palavra ‘cânone’, dita de uma forma que dá pena, pela preocupação que embolora mas que dá pose e grito a quem tá mais ansioso em se encaixar em parâmetros do que em semear passados emudecidos e incêndios da carícia do nosso verbo. A cada duas frases ali, uma tem a paúra do ‘cânone’...)

Bão, na Educação prestei e passei no mestrado e fui dedilhar a pós-graduação da tal da USP, ainda pesquisando e praticando Educação de Jovens e Adultos. Aprendendo uma linhagem teórica que eu num tinha nunca nem resvalado no cheiro, vindo da linearidade dos estudos historiográficos e passando pra lenha de estudar a mitologia de Campbell e Eliade e Ferreira Santos, a noção de complexidade e os estudos sobre método e paradigma de Morin, a filosofia de Merleau-Ponty e de Bachelard, a educação fática de Paula Carvalho, a sociologia do Maffesoli. Horas e horas e dias e anos pra deixar bem entendidinho esses tabuleiros de transformação, bem firmados nos gestos dos antepassados (num tô citando esses nomes pra meter marra, pagando de chá azedo e biscoito inglês. É só pra frisar o que era idéia cabulosa que eu num sabia nada de nada, vindo de outra paisagem, de outra faculdade, de outros fins e meios de pensamento). Com eles, traçando a teia de estudar as considerações de Muniz Sodré, de Leda Martins, de Eduardo de Oliveira, de Ronilda Ribeiro, estes que bela e briosamente apresentam fundamentos teóricos QUENTES pra entender a cultura negra no Brasil e suas raízes de jogo, segredo, teatralidade, luta, duplicidade, drama. Formas de conhecer e de partilhar, cosmovisões.

E todos esses grãos de pensamento, de pesquisa, de cultura já desenvolvida que dão crença e esperança na humanidade, se aliaram no meu modelê de uma escultura que se baseava na Teoria das Estruturas Antropológicas do Imaginário, dum professor chamado Gilbert Durand, que entre milhares de vãos e colheitas, ressaltou o quanto o imaginário é asa do corpo, de cada parte e memória e jeito que o corpo dá, ou deu. Há milênios e hoje de manhã.

Essencialmente, tentei nos três anos de estudo no mestrado abrir a tramela da pergunta: Como pode a matriz afro-brasileira alimentar o processo de Educação de Jovens e Adultos? E daí brotou mais cachos de dúvidas e de chamas.
A base do trampo, o chão da caminhada das leituras e da escrita, sempre foi minha sola na sala de aula com os estudantes ou nas formações de professores, os anos na ginga entre a palavra da boca e a da caneta, entre a fala e a escrita ( e o silêncio). Mas pra cerne do trabalho escolhi a experiência de um semestre no CIEJA Campo Limpo, este búzio da educação paulistana. Ali, elementos materiais muito fortes da vivência e da memória negra no Brasil, foram tocados, cheirados, ouvidos, degustados, vestidos, versados, fotografados... na intenção de entender mais sobre as brechas e seivas da razão sensível, do pensamento racional que se nutre dos outros adubos e colheitas que o corpo como um todo oferece, pralém do monopólio da mente, essa que é dádiva e sanha nossa, mas juntando o namoro dela com os sentidos, com a mitologia, com a experiência.

“Imaginário, Corpo e Caneta: Matriz Afro-brasileira em Educação de Jovens e Adultos” foi trabalho tecido, em todo o seu tempo, na ripa com a palavra que envolveu e floresceu por dentro a minha vida nestes últimos anos com escrita, saraus e debates, literatura, editoração,  radiofonia, cantoria de angola, com a chuva sonhada e a arquitetura doída do revide fundamentado que meus passos, pareados por pessoas tão maravilhosas que me fazem gotejar da vista no teclado agora enquanto fraseio este texto, me deram a chance de preparar junto, nas quebradas de SP.

Eu agradeço a estas pessoas, muito. Agradeço a quem chegou até aqui nesta última linha que visa introduzir um pouco a chegada à dissertação. E sou grato a quem se interessar em ler os vitrais e partituras que apresento neste trabalho que é acadêmico, sim, mas que tá num mundo que gira e que tem ladeiras, encruzilhadas, vielas, suores, bibliotecas comunitárias, feiras, pontes, esgotos e moradas do pensamento pra gente tijolar e pintar, pralém dos gabinetes e ilhas.

Anexos:
Fazer download deste arquivo (Imaginário, Corpo e Caneta.pdf)clique aqui para baixar a dissertação[Imaginário, Corpo e Caneta]8355 Kb
 

Contato

Para trocas de idéias, trabalhos ou aquisição de livros:

edicoestoro@yahoo.com.br

AGENDA DA TORÓ - apresentações, debates, palestras e oficinas

Curso: "Espiral Negra: Ciência e Movimento"
SABs - 30/01, 06, 20 e 27/02, 06 e 13/03 - Sempre das 14h às 17h. No Espaço do Quilombaque: Travessa Cambaratiba, portão 05 (rua sem saída paralela à estação de trem Perus; próxima à Praça Inácia Dias)

 
Mesa Redonda – “Sustentabilidade e novos modelos de negócios: é possível ser um profissional da cultura livre?”
QUA – 27/01 - 12hs às 14hs – No Diálogo Interplanetário de Cultura Livre - pelo Fórum Social Grande Porto Alegre 10 anos,
Parque Eduardo Gomes – Galpão 17 - Estação Fátima, Canoas/RS.
Com Matias Reck (Editorial Milena Caserola - Argentina), Dardo Ceballos (Red Panal - Argentina), Allan da Rosa (Toró), Gustavo Anitelli (Música para Baixar - Brasil) e Dan Baron (IDEA - Brasil)

 

Lançamento do livro “18 anos, 20 histórias”, em parceria com o CEDECA Interlagos
SEG – 14/12 às 20hs – No Sarau do Binho. Rua Avelino Lemos Junior, 60 – Campo Limpo, São Paulo/SP

 
Aulas com Arte “As Tranças do Verbo – Uma História da Palavra Afro-Brasileira” & "Folhas e imaginário negro: razão sensível e pedagogia"
DOM - 13/12, das 14:45 às 17hs – Na VIII Feira Preta.
No Palácio das Convenções do Anhembi (Estande da CEERT) – São Paulo/SP


 

Oficinas “As Tranças do Verbo” & “Folhas e Imaginário - razão sensível e ciência na matriz afro-brasileira”. Com professores de EJA em História e Geografia, de Ipatinga/MG
TER 08/12 – Das 13 às 17hs e das 18 às 22hs – Na Escola Municipal “Padre Cícero de Castro”, Bairro Areal, Ipatinga/MG

 
Oficinas, debate-papo e recital No Sesc Ponta Grossa / Paraná – Projeto “Periferia de Ponta a Ponta" (Universidade Estadual de Ponta Grossa - Paraná)
SAB - 05/12, das 9h às 12h. No SESC Ponta Grossa - Rua Theodoro Rosas, 1247 - Tel: (42) 3222-543

 

Apresentação de “Poesia, Atabaque e Mandinga” (com entrada restrita)
SEG - 30/11, às 14hs e às 16hs – Na Unidade Topázio da Fundação Casa. No Complexo Brás

 

Debate: “Arte e Cultura Negra – Prática e Resistência”
Com Dilma de Melo Silva (ECA/USP), Allan da Rosa (Edições Toró), Dennis de Oliveira (ECA/USP) e Renato Cândido (Cine Becos e Vielas)
SEX - 27/11 às 18hs – No Anfiteatro da Faculdade de História da USP -  Av.Professor Lineu Prestes, 338 – Cidade Universitária – São Paulo/SP

 

Oficina “As Tranças do Verbo - Palavra e Cultura Afro-Brasileira”, em programa de formação de professores da rede municipal paulistana para relações étnico-raciais.
SEG - 23/11 às 08hs30 – Na Sub-Prefeitura do Campo Limpo - R. Nossa Senhora do Bom Conselho, 59 – São Paulo/SP

 

Versação no Show do Dia da Consciência Negra – “África em nós”
SEX – 20/11 – às 15hs30 (entre as apresentações de Kamau/GOG e do Quinteto em Preto e Branco)
Praça da Sé – São Paulo/SP

 
Debate-papo com Marcelino Freire e Binho, no II Encontro com A Poesia Urbana
TER – 18/11 às 19hs. No Memorial da América Latina - Portão 01. Av. Auro Soares de Moura Andrade, 664 - Barra Funda - São Paulo SP

 

Versação na apresentação Juventude Negra: Artes em defesa da Vida
TER – 18/11 às 14hs. No Teatro Adamastor, Avenida Monteiro Lobato, 734 – Macedo, Centro de Guarulhos

 

Allan da Rosa apresenta o nigeriano Wole Soyinka, primeiro africano Nobel de literatura
DOM - 15/11 às 21hs30 - No programa “Entrelinhas” - TV Cultura

 

Mateus Subverso realiza oficina de Dança de Rua - Centro de Referencia da Juventude • CRJ
QUA - 11, 18, 25/11 das 15:00 às 17:00 - Rua Andronico dos Prazeres Gonçalves, 114 - Embu - SP

 

Apresentação de trabalho e participação geral no Colóquio Internacional: O Ensino da História e Cultura da África e da Diáspora
SEG a QUI – 09 A 12/11, manhãs e tardes
Na Universidade Corporativa dos Correios , SCEN - Trecho 2 - Lote 4 - Via L4 Norte, Brasília/DF

 

Debate-papo na Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo/ Rio Grande do Sul
SEX - 30/10. Às 14hs – No Circo da Cultura – Campus da UPF. Rodovia BR 285, s/n – Passo Fundo/RS

 
Oficina: “As tranças do verbo – Uma história da palavra afro-brasileira”. Com as ativistas da ACMUN – Associação Cultural de Mulheres Negras de Passo Fundo/RS e com educadoras do município.
QUI – 29/10 às 19s30 - No Instituto de Filosofia Berthier - Rua Senador Pinheiro,304 - Vila Rodrigues- Passo Fundo/RS

 

Curso: Caminhos Africanos e Giros Afro-Brasileiros – História e Cultura Negra
SAB´s  -24 e 31/10 e 07, 14 e 21/11 - Na Senzalinha (Sede do Grupo de Capoeira Angola Irmãos Guerreiros) – Rua Arlindo Genaro de Freitas, 692 – Jd.Saporito- Taboão da Serra/SP

 
Oficinas e participação geral no Curso Iniciativas Negras – Universidade Federal do Ceará
De 08 a 18/10 – Na UFC / Campus Cariri - Av. Tenente Raimundo Rocha S/N - Cidade Universitária - Juazeiro do Norte - CE

 
Debate-papo sobre ensino da cultura negra e indígena nas escolas (Fórum Social SUL – Grupo de Educação e Cultura)
SEG - 05/10 – às 19hs30, (Antes do) Sarau do Binho – Rua Avelino Lemos Junior, 60 - Campo Limpo/SP

 
Lançamento do livro “Hip Hop Mulher – Conquistando Espaços”
QUI – 01/10. Às 19hs, Na Ação Educativa - Rua General Jardim, 660 - Vila Buarque


Apresentação de “Poesia, Atabaque e Mandinga” – Na inauguração do Espaço Ninho Sansacroma
SAB – 26/09, às 19hs, na Fábrica de Criatividade - Rua Dr. Luís da Fonseca Galvão, 248 - Capão Redondo/SP


Oficinas de Literatura no Projeto “Jovens Urbanos”
SAB´s e TER´s – 21 e 28/07 & 01, 04, 11 e 18/08 – Na Paróquia Sagrada Família. Estrada Lageado Velho, 533 - Guaianazes/SP


Apresentação de “Solano Trindade e suas Negras Poesias” – Com a Cia Capulanas
SAB – 15/08, às 20hs - No quintal da Toró – Rua Teodoro Bayma, 82 – Morro do Mineiro -Taboão da Serra/SP


Apresentação de “Poesia, Atabaque e Mandinga”
SAB – 25/07 – No Teatro Solano Trindade – Av.São Paulo, 100, Embu das Artes/SP

 

Palestra “As Tranças do Verbo” e Oficina de Literatura com Professores do Ensino Fundamenta
TER 21/07, às 09hs - No CEU Vila Atlântica – Rua Coronel José Venâncio Dias, 840 - Pirituba/SP


Sarau em homenagem à Literatura Marginal e aos escritores Ferréz e Allan da Rosa
SAB 18/07, às 20hs – No Centro de Formação de Professores da Secretaria de Educação de Osasco –Av. Marechal Rondon, 263 – Centro -Osasco/SP


Formação de 32 professores pelo Projovem Trabalhador
Diariamente, de MAI a AGO/2009, pela Secretaria de Participação Cidadã de Embu das Artes


Para ver as atividades passadas clique AQUI