
(...) lições, funções e missões por estradas e esquinas, bocadas e várzea, me esquivando da encheção de saco de quem pesava na idéia de eu prestar uma faculdade, porque dizia que quem parava não conseguia voltar. É nada, não necessariamente, porque acho que essa foi das fases que mais li na minha vida. De romance polonês, mexicano e gaúcho, de contos franceses, beatniks, baianos e de poemas mineiros e gregos até teoria lingüística comunista e biografia de astronauta... eu engolia o vício de ler, estudando sem método mas com gulodice. Rodando estradas com livros e fanzines na mochila e teatro no chapéu, conheci por dentro acampamentos, favelas, praias e roças de 20 estados do Brasil. O que fez diferença quando, quatro anos depois de formar no colégio, me matriculei pra fazer o cursinho do Núcleo de Consciência Negra na USP, o NCN, já que todo arsenal juntado e o diferencial na concentração febril do ano de prova vinha do vício de ler, abrindo entendimento e reconhecimento de temas que eram alienígenas pra quem vinha só mastigado das passagens por escolas públicas, caso de 100 % nosso, da pretada que ali entrava no apetite e que às vezes ia até esmorecendo pra culminar no choro depois do vestibular, ou na resignação do que já parecia que ia acontecer mesmo.
Pois assim, passei no tal do vestibular e entrei no curso de História. Concorri também na Geografia da UNESP e passei em primeiro, sendo motivo da simples e compreensível metidez da minha mãe uns dois meses e de um orgulho e uma alta estima no cursinho do Núcleo por um bom tempo também. Jóia. Mas fiz graduação aqui na capital, e pra isso vivi clandestino por três anos e meio em quartos e tretas com a administração do CRUSP ( depois conquistei um ano de vaga lícita), empapuçando da ilha que fascina no começo, mas ao mesmo tempo sempre manjando que ali tinha possibilidades de avermelhar a andada, possibiliades que só dali saíam. Nessas, pela necessidade de arejar a narina do mofo da ilha, me entrosei com gente de muito valor, da rapaziada aos anciãos, que habitava e girava pelos fundão da zona oeste e de Taboão, onde conheci a mocambage do Galpão no Jd.João 23 e a Posse Suatitude de Hip Hop, irmandade que até hoje frutifica e faz Toró, propicia morada, referência e gesto. Depois colei no Embu e fui desguiando pras bandas do outro lado da zona sul, não da ponta que eu vinha, mas outra, dendezada e de onde chegava a maioria dos estudantes que faziam comigo a sala de Educação de Jovens e Adultos ( EJA) no Núcleo de Consciência Negra. Ali, com a dignidade e a injustiça que arrodeava e inchava os tornozelos, com a mulherada que vinha do Valo Velho, do Taboão, do Rosana, etc, pra trampar na manutenção da ilha e se letrar comigo nos fins de tardes, comecei a lida com o povo adulto que fertiliza os cadernos empunhando os quilos que pesa um lápis e a tonelada de uma caneta, com a teimosia e os pesares, o respeito e a bagagem, que só os coroas têm e trazem pra escola. Fiz outros trampos na ilha também, por intermédio dos estudos e formações ali cavucados, na universidade que oferece uma penca de oportunidades e de horizontes, que só na ficção brilham na cabeça e no pulso de quem vem daonde a gente vem. Mas a ficção tem sua fricção e ela alimentou a tomada de realidade e a insistência em aprender mais sobre história e cultura, políticas e escritos de matriz afro. Convivendo com a pouca qualificação da maioria dos professores sobre tal questão, mas independente fazendo a retirada de livros e mais livros de pretice na biblioteca, correndo atrás do que ainda hoje, descarada e negligentemente, ainda tá na poeira ou na lateral de fora do que se considera e se ratifica como conhecimento e teor de intelectualidade. E que me parece só mudará quando a universidade ganhar mais tinta, mais gana e gama suburbana. Dançando, angoleando e desenrolando mais um mar de estripulias, revides, fundamentos, políticas, salgos, militâncias e, principalmente, trançando as manhãs e noites com as quebradas das bandas da oeste e da sul paulistanas, concluí a graduação em História, habilitado pra pesquisar e pra dar aula. Mas aí mirei uma linhagem de estudos na Faculdade de Educação, que parecia deixar aberto o ensino da Poesia da vida sem esquematizar e anestesiar o conhecimento, a palavra e a experiência, sem congelar o fraseado e o imaginário ( A Faculdade de Letras, de onde saem algumas pessoas de valorosa atuação na rua e de matutação admirável, também é onde, por exemplo, mais ouvi a palavra ‘cânone’, dita de uma forma que dá pena, pela preocupação que embolora mas que dá pose e grito a quem tá mais ansioso em se encaixar em parâmetros do que em semear passados emudecidos e incêndios da carícia do nosso verbo. A cada duas frases ali, uma tem a paúra do ‘cânone’...) Bão, na Educação prestei e passei no mestrado e fui dedilhar a pós-graduação da tal da USP, ainda pesquisando e praticando Educação de Jovens e Adultos. Aprendendo uma linhagem teórica que eu num tinha nunca nem resvalado no cheiro, vindo da linearidade dos estudos historiográficos e passando pra lenha de estudar a mitologia de Campbell e Eliade e Ferreira Santos, a noção de complexidade e os estudos sobre método e paradigma de Morin, a filosofia de Merleau-Ponty e de Bachelard, a educação fática de Paula Carvalho, a sociologia do Maffesoli. Horas e horas e dias e anos pra deixar bem entendidinho esses tabuleiros de transformação, bem firmados nos gestos dos antepassados (num tô citando esses nomes pra meter marra, pagando de chá azedo e biscoito inglês. É só pra frisar o que era idéia cabulosa que eu num sabia nada de nada, vindo de outra paisagem, de outra faculdade, de outros fins e meios de pensamento). Com eles, traçando a teia de estudar as considerações de Muniz Sodré, de Leda Martins, de Eduardo de Oliveira, de Ronilda Ribeiro, estes que bela e briosamente apresentam fundamentos teóricos QUENTES pra entender a cultura negra no Brasil e suas raízes de jogo, segredo, teatralidade, luta, duplicidade, drama. Formas de conhecer e de partilhar, cosmovisões. E todos esses grãos de pensamento, de pesquisa, de cultura já desenvolvida que dão crença e esperança na humanidade, se aliaram no meu modelê de uma escultura que se baseava na Teoria das Estruturas Antropológicas do Imaginário, dum professor chamado Gilbert Durand, que entre milhares de vãos e colheitas, ressaltou o quanto o imaginário é asa do corpo, de cada parte e memória e jeito que o corpo dá, ou deu. Há milênios e hoje de manhã. Essencialmente, tentei nos três anos de estudo no mestrado abrir a tramela da pergunta: Como pode a matriz afro-brasileira alimentar o processo de Educação de Jovens e Adultos? E daí brotou mais cachos de dúvidas e de chamas. “Imaginário, Corpo e Caneta: Matriz Afro-brasileira em Educação de Jovens e Adultos” foi trabalho tecido, em todo o seu tempo, na ripa com a palavra que envolveu e floresceu por dentro a minha vida nestes últimos anos com escrita, saraus e debates, literatura, editoração, radiofonia, cantoria de angola, com a chuva sonhada e a arquitetura doída do revide fundamentado que meus passos, pareados por pessoas tão maravilhosas que me fazem gotejar da vista no teclado agora enquanto fraseio este texto, me deram a chance de preparar junto, nas quebradas de SP. Eu agradeço a estas pessoas, muito. Agradeço a quem chegou até aqui nesta última linha que visa introduzir um pouco a chegada à dissertação. E sou grato a quem se interessar em ler os vitrais e partituras que apresento neste trabalho que é acadêmico, sim, mas que tá num mundo que gira e que tem ladeiras, encruzilhadas, vielas, suores, bibliotecas comunitárias, feiras, pontes, esgotos e moradas do pensamento pra gente tijolar e pintar, pralém dos gabinetes e ilhas. |




